Author - avedouda

Papier mâché projects

“Queen Santa Isabel” was made in papier mâché (± 63″) by customer order. It represents the a Queen very cherished by the people of Coimbra.

A “Rainha Santa Isabel”, feita em papier mâché (1.60m), por encomenda. A rainha Santa Isabel, é muito acarinhada pelos habitantes de Coimbra.

 

 

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Júlia, the Sardine, it represents a fish shop, in Coimbra (± 63″).

A Sardinha Júlia, é a mascote de uma loja de conservas em Coimbra (h 1.60m).

 

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“The Queen” was around 3 years at Galeria Santa Clara facade, in Coimbra. It represents a Portuguese legend, “The Roses Miracle”. Made of papier mâché and gold leaf.

“A Rainha” esteve cerca de 3 anos na Fachada da Galeria Bar Santa Clara, em Coimbra. Representa a “Lenda das Rosas”. Feita em papier mâché e folha de ouro.

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“Portuguese Guitar of Bilros”, it’s an homage to “bilros” laces and to the Portuguese around the world. Made with papier mâché, “bilros” laces and gold leaf.

“Guitarra Portuguesa de Bilros”, uma homenagem à renda de Bilros e aos Portugueses espalhados pelo Mundo. Feita de papier mâché, bilros e folha de ouro.

 

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“Portuguese Love”, 2nd Nacional Award of Contemporary Handcraft 2011. The sculpture is made with papier mâché, all painted in white, without the color usually associated with the popular Barcelos rooster. It creates a great atmosphere with the light design effects. Highlighting the drawings produced it creates numerous points of light in the walls around him, so the rooster is raised by referring to the Fado, with its long skirts, to the filigree and love, also by the drawings depicted.

“Amor Português”, recebeu o 2º Prémio Nacional de Artesanato Contemporâneo, 2011. A peça, feita de papier mâché, é toda pintada de branco, sem a cor normalmente associada ao Galo de Barcelos, e deste modo, dando relevo aos desenhos de luz produzidos pelo recortado, criando inúmeros pontos de luz nas paredes à sua volta. O galo eleva-se remetendo-nos para o Fado, com as longas saias compridas, a filigrana e para a saudade, também pelos desenhos representados.

 

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Essence“, “what constitutes the nature and the nature of things”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Made of net and papier mâché. It represents the Human Nature: cientificaly heart and lungs, but mainly Love is the meaning of living. Escola Superior de Tecnologia da Saúde, Lisboa.

“Essência” o que constitui o ser e a natureza das coisas, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Peça feita de rede metálica e papier mâché. Representa o coração e pulmões humanos, mas afinal o Amor, o sentido da vida. Escola Superior de Tecnologia da Saúde, Lisboa.

Journals at the Museum Machado de Castro, Coimbra

The Museum Machado de Castro, in Coimbra, has got in it’s collection, beautiful tiles from the eighteen century. They represent flowers, in blue and white. I do the journals to sell at the museum shop. Cynara cardunculus, in Portuguese called “alcachofra”. It grows wildly in the field, with it’s beautiful dried purple and lilac colors. I did my own linocut design based on this flower, to be used as journal covers. For the back covers I use another fabric, eventually with Portuguese design or other fabric. Then I select papers, tassels, cords, book marks, and other details to make them fully designed and unique. All journals include a pencil (by a Portuguese pencil factory). A unique journal with its own personality. A journal that breathes. A journal that speaks. A journal that has a soul.

No acervo do Museu Nacional Machado de Castro, existe uma coleção de azulejos, de figura avulsa de flores. Azulejos do século XVIII, com pintura em azul. Com base nestes azulejos, foi desenhada uma coleção de livros em branco, para venda na Loja do Museu.

O desenho dos azulejos foi trabalhado tendo resultado um trabalho de linóleo, que é estampado em tecido na capa dos livros. No verso é escolhido um tecido de acordo com as cores utilizadas nas capas, que poderá ou não ser um tecido típico Português. Todos os livros têm um lápis e uma série de detalhes que são escolhidos, um a um, tornando os livros únicos, reflectindo o carácter Português. São assim, também livros únicos que respiram e falam por si. Livros que têm alma.

Viagem às profundezas do Convento de Mafra

O Convento de Mafra a cerca de 30 km de Lisboa, foi mandado construir por D João V, após a sua promessa de o edificar caso tivesse descendência. As obras iniciaram-se em 1717 , já depois do nascimento da sua filha. As obras duraram 13 anos e trabalharam nelas cerca de 47 mil homens. O Convento ocupa uma área de 30.000m2 sendo o maior edifício nacional.

As torres sineiras têm quase 70 m e são visíveis a 20km de distancia. Cada torre tem 119 sinos , pesando 217 toneladas.

O Convento tem 1200 divisões, 4700 portas e janelas, 156 escadarias e 29 pátios. A biblioteca tem um acervo imenso a nível Europeu e de todas as áreas do século XVIII.

Foi também lugar de escola de Escultura, sob orientação de Alessandro Giusti, tendo a maior coleção de escultura Barroca, fora de Itália. Vale a pena visitar o Convento e assistir todos os 1ºs Domingos ao concerto dos 6 Orgãos na basílica. Há na biblioteca peças de música que apenas podem ser tocadas no Convento, devido ao seu conjunto único dos 6 orgãos.

Berlengas, the birds islands

At the boat entrance, a sailor distributes plastic bags by travellers. The luggage is secured with a strong cover. We leave Peniche start going inside the wild sea. We start thinking being inside a little boat like a fisherman. However this is a two floors boat.. It seems to be eaten by the waves, we have to hold on … and that’s how after one hour we arrive at Berlengas Islands.

On the island the gulls sing a dissonant chorus. They intersect all the ways we walk. In some we have to wait. We understand it’s their island, not ours! We walk around the island. On paths less traveled we feel more intensely the aggression of seagulls. A fort with a solid construction is connected by a narrow bridge that makes the connection. It invites only the most fearless to visit. The lighthouse and the atmosphere will turn reminds us of the “Adventures of the Five” by Enid Blyton. The gulls, “The Birds” Hitchcock movie.

The weather is bad, the sandy beach is rather small. Another boat arrives full of people to spend the day in the small beach of ice water. At the end of the day the sky is dark and cloudy. This peacefull and quiet island is fill up with the cries of seagulls. We can take a shower, cold and brackish water. We can feel the isolation. A magical place, a mix of ghastly and fantastic! During the night, deafening screams take care of us. Strange cries, difficult to associate it to birds. The shearwaters come to feed the cubs, and more we seem to be in a market where the birds preach.
When we leave the island, under the rain and strong wind, we have the nostalgic image of the island with its lighthouse and thousands of gulls. We can understand why there are no boats during the Winter.

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Á entrada para o barco, um marinheiro distribui sacos de plástico pelos viajantes e a bagagem é protegida com um forte oleado. Despedimo-nos de Peniche e entramos em alto mar, neste barco de dois pisos que nos faz pensar nos pescadores… Este “enorme” barco parece ser comidos pelas ondas, temos de nos agarrar… e é assim que passada uma hora chegamos às Berlengas.

Na ilha as gaivotas cantam num coro dissonante. Elas cruzam-se em todos os caminhos por onde andamos. Em alguns temos de esperar, a ilha é delas e não nossa. Damos a volta à ilha. Em caminhos menos percorridos sentimos mais intensamente a agressão das gaivotas. O forte, sólida contrução junto à ilha, ligado por uma sinuosa ligação, convida apenas os mais destemidos e sem vertigens a visitar. O farol e todo o ambiente á volta lembra-nos as “Aventuras dos Cinco”, de Enid Blyton. As gaivotas o fime “The Birds” de Hitchcock.

O tempo está mau, a praia com areia é bastante pequena, mesmo assim, chega o barco cheio de pessoas para passar o dia na pequena praia de água gelada. Ao final do dia o céu está carragado de nuvens, a ilha muito calma apenas com os gritos das gaivotas. Podemos tomar um duche, de água fria e salobre. Sentimos o isolamento. Um lugar mágico, a mistura entre o medonho e o fantástico! Durante a noite acordamos com gritos ensurdecedores, algo tão estranho e difícil de associar ao som das aves que já conhecemos. As cagarras (ou pardelas) vêm alimentar as crias, e mais parece que estamos num mercado, onde as aves apregoam.

Quando deixamos a ilha, debaixo de chuva e vento forte, fica uma imagem nostálgica, da ilha com os seu farol e milhares de gaivotas.

 

Carrasqueira

There are things naturally photogenic. I would say that almost all things can be photogenic. But some do not require great effort to achieve this.  Carrasqueira has got everything, a sunrise, a sunset, a great color. Textures. The wrinkles. Of immense beauty. It has got the mud, the water, the wood, the boats, the huts, the lizards, the light, the sun, the sky, the rain, the stars and the moon. We hear breathing. Even the mosquitos have got a gloden light! Enough things to keep us there for days and days and discover new pieces every day … impossible to discover everything.

 

A Yurt at “Tamanco”

I found “Tamanco”. I found what a “yurt” was. It’s a former Mongolian construction, still in used in few small places. It is near by “Louriçal”, Pombal. Nobody is at the entrance. Nobody answers either the bell, neither the phone. We went inside a different place. We were received by ducks, roosters and cheeses that do not care about us. We went inside the restaurant, where a few Northern European are having dinner. They told us to choose any place and offered a delicious dinner. A big fire place warms the night, even being in May, nights are still cold. Simple decoration but accurate selection. Few beautiful “yurts” are spread around the camping, with colourful cotton covers and textiles around. There is a bicycle way to the beach, 15km away, and we go to feel the smell from the sea…

Cheira bem, cheira a Lisboa!

Cheira bem, cheira a Lisboa. Lisbon smell.  http://www.youtube.com/watch?v=EoA1mCqdsVM

“Cheira bem, cheira a Lisboa” Amália Rodrigues

Lisboa já tem Sol mas cheira a Lua
Quando nasce a madrugada sorrateira
E o primeiro eléctrico da rua
Faz coro com as chinelas da RibeiraSe chove cheira a terra prometida
Procissões têm o cheiro a rosmaninho
Nas tascas da viela mais escondida
Cheira a iscas com elas e a vinho(Refrão)
Um craveiro numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, cheira a Lisboa
A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiro de flores e de marCheira bem, cheira a Lisboa (2x)A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiro de flores e de marLisboa cheira aos cafés do Rossio
E o fado cheira sempre a solidão
Cheira a castanha assada se está frio
Cheira a fruta madura quando é VerãoTeus lábios têm o cheiro de um sorriso
Manjerico tem o cheiro de cantigas
E os rapazes perdem o juízo
Quando lhes dá o cheiro a raparigas(Refrão)Cheira bem, cheira a Lisboa (2x)A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiro de flores e de mar

Tuesday Trend, Etsy

“Tuesday Trend” it is a selection of items from Etsy shops

Me and the pomegranates, eu e as romãs

I couldn’t make it disappear before make a photography session with it… so beautiful colors, texture, patterns, the transparency. So inspiring. One pomegranate. A basket with pomegranates. How great is the nature. It always surprised me!

As minhas pernas ganharam rodas. Santiago.

Ainda tentava arranjar um espacinho para o rolo de papel higiénico. Ou tirava o casaco, ou tirava a toalha, ou tirava o impermeável e levava o papel…  Nos punhos da bicicleta!??? Os alforges quase não fechavam. Levava o indispensável, umas boas botas que fora aconselhada a levar “terás muita serra para desbravar” (nem eu sonhara quanta!)… Na bicicleta estava tudo a postos. As rodas cheias à espera de darem inicio à “caminhada”, os cantis cheios. Em Valença do Minho, finalmente após voltas e reviravoltas, montamos as bicicletas com os respectivos alforges… estavam tão pesadas que mal conseguia conduzir a direito! Após a primeira paragem, ainda em Valença, rapidamente chegámos à ponte Internacional. Encontrava-se em obras, só passava uma linha de carros de cada vez, ora num sentido, ora noutro… Cruzámo-nos com alguns turistas que visitavam Valença. Estava uma luz intensa, mas que se aproximava do final da tarde. As ruas de Tui faziam-se aos “eses” cheios de entusiasmo e energia, ora pelos portos, ora pelas fontes, até chegarmos a uma estrada com uma bifurcação: um marco indicava “o Caminho” para a esquerda. Entrámos por um bosque.

Dávamos inicio à verdadeira “caminhada”, parando em todos os recantos para fotografar. Pedalámos pelas florestas. Quanto falta? 10, 20 km? No meio do bosque viam-se rasgos de sol que entravam através das árvores, parecia “A Floresta” de Sofia de Melo Breyner. Começámos a ouvir ladrar bem ao longe. Muitos cães. Aproximavam-se. E agora?… Que fazemos? Como subimos a estas árvores gigantes? Eles começaram a aparecer, muitos, mas completamente indiferentes à nossa passagem, andavam à procura de outra coisa… Uf! Chegamos às Gandaras, zona industrial, das piores para os peregrinos, uma recta com fábricas à esquerda e à direita, desinteressantes. Afinal de bicicleta não era assim tão mau! Era uma recta… Cerca de 4km. Havia até uma fábrica de bolachas, com uma “vending machine”, a única quebra da monotonia! Dei boleia a uma libélula, estava meia morta no chão, era de tons de verde, azul e prata. Peguei nela e coloquei-a no meu volante protegida pela mala da máquina fotográfica… Ela ali ficou agarrada com as suas delicadas patas. Gostou da boleia. Pensei que poderia ficar minha companheira de viagem, mas receiei não conseguir protegê-la até ao final… Faltavam muitos quilómetros. Despedi-me dela, no campo, assim que terminou o polo industrial e encontrei uma zona verde. Ela agradeceu a boleia. Iria morrer num lugar mais digno. E chegou a primeira enorme descida, asfaltada, com caminho aberto e com boa visibilidade! Uau… Olhando em frente nem conseguia olhar o conta quilometros, com o vento a bater e a velocidade do nosso corpo rasgando o ar. Um enorme sentido de liberdade! Sinto me voar!

Chegámos ao albergue do Porriño, já de noite. Muitos caminhantes sentados à porta, mesmo frente ao rio. O senhor disse-nos ter o albergue cheio, mas arranjava-nos uns colchões para dormirmos no corredor. Não imaginava como seria essa noite… Afinal arranjou uma cama num dormitório. Fui fazê-la, estava o quarto cheio de apertados beliches onde os caminhantes dormiam, eram nove horas da noite. Deitei-me, completamente escuro, entre um rapaz que dormia de calções e uma personagem que pela sombra não consegui identificar ser homem ou mulher. Fazia muito barulho, tinha uma máquina com um tubo para respirar. Como a vida no dia-a-dia poderia depender duma máquina, e estava ali num albergue de peregrinos… Como tudo é relativo… As janelas estavam abertas de par em par, viam-se luzes da cidade à volta e ouvia-se o burburinho da noite. Ainda bem que tinha ficado no beliche de cima!… Havia uns vinte pares de beliches. De repente, a meio da noite, um grande estrondo e a máquina do vizinho tinha-se espalhado pelo chão. Vi agora que era um homem. As luzes acederam-se em simultaneo, as pessoas estremunhadas esfregavam os olhos no cimo dos beliches… Finalmente a calma voltou e o dormitório regressou ao silêncio povoado com o roncar dos peregrinos. Saimos ainda de noite. Tomámos o pequeno almoço num café aberto junto à linha do comboio. Vimos passar um casal de bicicleta, ela pequena loura, sem carga, ele altissimo de corpo moreno e com uma mochila do tamanho do seu corpo… Mais tarde, viríamos a estar com eles, na grande praça de Santiago. Reiniciámos mais uma “caminhada”, uns rapazes “locais” passaram por nós dizendo termos demasiado peso. Estarão habituados a ver os ciclistas leves contrastando com a nossa inexperiência… A manhã despontava, um grupo de homens conversava num círculo, estávamos em Mós. A arquitectura era bonita e avistava-se uma grande subida. Carregámos as bicicletas rampa acima. Desta vez os caminhantes ultrapassavam-nos, dando um empurrãozinho na minha bicicleta que teimava em não querer subir!

Do resto do percurso tenho poucas memórias. Subidas. Subidas e mais subidas. E ainda mais subidas! Sempre com a bicicleta ao lado, empurrando-a. 30 kg. Raras pessoas se cruzavam connosco. De repente vi-me enfiada numa valeta repleta de plantas e com a bicicleta caída em cima de mim! Nessa altura passaram 2 ciclistas portugueses bastante rápidos. Perguntaram se era necessária ajuda. Não, está tudo bem! Só preciso que me tirem do buraco! Estão à espera de quê?! E acabámos pouco depois num restaurante de estrada com um grupo de 16 ciclistas “profissionais” de Felgueiras. Eram experientes e habituados a fazer o Caminho, de bicicleta, queixaram-se dos seus 3 kg de peso, tiveram pena de nós (porquê!!??) e deram-nos bebidas energéticas e reposições proteícas. Avisaram-nos do percurso difícil que ai vinha. De certeza, pior do que este que acabámos? Perguntei, esperançada que alguém o contrariasse… Nem imaginaria o quão mau seria…

Lá nos despedimos, eles seguiram, desejam-nos sorte e a expressão mais ouvida “bom Caminho”! As subidas eram íngremes e o pior era o piso. De pedra, pedra imensa, por onde a bicicleta só passava arrastada, sempre a travar… O pneu da frente, ao ser empurrado resvalava nas pedrinhas e tombava para a berma não queria subir, o peso estava muito desequilibrado! Vá lá! Só mais um passo… Parecia-me que levava a bicicleta ao colo! Doíam-me os braços de empurrar. Comecei a ficar com feridas e nódoas negras, que me acompanharam até mais de um mês depois. O sol estava forte, o muito calor e o cansaço já tinham chegado. Em força! Não, não pode ser tão mau! Uma libelinha bailou à minha frente, fiquei a olhar para ela. Era um sinal. Indicava-me o caminho. Voou até mim, deu meia volta e prosseguiu na direcção certa… Tinha de prosseguir. Pedalámos pouco e empurrámos muito. Chegámos a Pontevedra. O albergue de peregrinos ficava logo à entrada, estava cheio. Pedi se podíamos ficar num colchão na entrada ou em algum canto… Não, estamos cheios e como há festas terão de procurar um hotel com vagas! Por mim dormia ali, ao relento, no banco da entrada. Lá conseguimos um hotel com lugar para as bicicletas. Os ciclistas nunca têm prioridade nos albergues, pelo que é difícil arranjar lugar. Têm de seguir para outro albergue, pelo menos a 20 ou 30 km de distância. Deviam lembrar-se que nem todos são ciclistas profissionais!… Os cavaleiros também. Surgem depois dos caminhantes e depois dos ciclistas.

Agora entendia porquê que os peregrinos estavam já todos a dormir às 8 ou 9 da noite… Já estava com os mesmos hábitos. Deitar ainda de dia e levantar de noite cerrada. Saíamos ainda de noite. É fantástico viver todos os dias o nascer do dia, na bicicleta. Uma frescura que nos enche de boa energia. “Bom caminho” dizia quem por nós passava, “Obrigada! Um bom dia!”. O Caminho era hoje bem mais bonito, mais pacífico e plano. No meio duma floresta a corrente da minha biciclete partiu-se! Raios! Tentei andar com o balanço, mas sem a ajuda dos pedais não havia balanço que a fizesse andar. Caminhamos até à aldeia mais próxima. Conhecemos o João, na sua 18º caminhada. Tentou ajudar-nos. Depois de muito subir acabámos por conseguir encontrar uma oficina de motas. As ferramentas são diferentes, não tinham para bicicletes, mas finalmente conseguimos ligar a corrente! Ainda pensei trocar a biciclete por uma das muitas motas, mas não me imaginava a entrar na Praça de Santiago de Compostela de mota… Não, não tinha graça! Estava um calor abrasador. As dores manifestavam-se por todo o corpo. Mas finalmente reencontrámos o Caminho e já podia pedalar! Almoçámos em Caldas dos Reis. Fomos interceptados por um grupo simpático de espanholas, que nos disseram onde era o albergue. Mas nós queríamos comer. Ainda era cedo para dormir. Almoçamos numa esplanada, cheia de “caminhantes”. O ambiente era animado, embora de cada um que se levantava saía um “ai”. Vou beber cerveja. Pode ser que ajude com as subidas! As bicicletas continuavam pesadas, o suficiente para deitar ao chão um biombo e o empregado do bar, quando tentou pôr a bicicleta “um bocadinho mais a jeito”… Tudo o que elas carregavam seria necessário até ao fim. “O primeiro dia é uma maravilha, estás fresco e cheio de energia… o segundo duro, duro, duríssimo! O terceiro dia é fatal! Sim! É mesmo! Mesmo fodido! Fodido! F-o-d-i-d-o”, diziam-me com o sotaque castelhano… “então e o quarto?” perguntei com esperanças que algo mágico acontecesse… “Ah! Ao quarto dia já estás mentalizada!” A magia morreu, rimos.

A tarde não foi tão dura, os caminhos pelo meio de campos agrícolas, entre a estrada principal e os caminhos pelas aldeias no meio dos campos, contrastavam com o dia anterior. A certa altura senti-me tão “aquecida” que não sentia nenhuma dor. Não me dói em nenhum sítio. Que maravilha! O pior é quando se pára e se continua de novo… O melhor é não parar! Uma sensação nunca antes sentida… a sensação de não sentir nada… a ausência do corpo (e do espírito!). Mas parámos num regato, com pedras. Que bom! Estiquei-me nas pedras. Que bom sentir os ossos gelados! Estava cheio de alfaiates e libelinhas, vieram ver-nos e perguntar onde íamos, no entanto, temo que já soubessem… Os cães dentro das suas casas, observavam-nos, como que habituados a ver nos passar… como as velhinhas à janela a ver a procissão. Ou vinham cumprimentar-nos e seguiam os seus caminhos. Os marcos indicavam os quilómetros que faltavam e a concha indicava o caminho. As pedrinhas faziam um pequeno montinho no topo dos marcos. Pedras e papelinhos enrolados em elásticos rogavam desejos e sonhos por cumprir. Alguns deixavam as botas, os sapatos… e até… quase a alma! Estava calor, avionetes, “canadairs” e helicópteros passavam-nos por cima. Bem pertinho, um grande incêndio, por trás das árvores por onde passávamos. Será que nos resgatam se o fogo estiver na nossa direcção? Quando finalmente conseguimos chegar à estrada principal, reinava a calma. Não, o fogo ainda é longe. Podemos continuar!

Vamos procurar o albergue. As indicaçãoes são confusas. Andamos às voltas, mas sem dificuldade, ainda era cedo e o corpo já não sentia… Um campo de milho ficava perto, a última paragem antes do albergue. Tinha o dobro da minha altura! Lindo! Enfiei me pelo meio do milho e senti-me como um coelho no meio das plantações, ou como um insecto no meio das flores! Tem uma escultura  dum caminhante a descansar os pés. Valga. Está vazio, fica no meio de uma etapa, e não no final. Deixam-nos ficar mesmo ainda faltando muito para as oito horas, estavam muitos dormitórios fechados. O único quarto está com os caminhantes a descansar. Desta vez há muitas bicicletes, um mostruário, uma tão completa que incluí espelhos retrovisores. O Holandês já tinha feito 5000 km e iria descer atravessar Portugal e seguir até Marrocos, dois meses de bicicleta. Sózinho. Até se cansar e apanhar o avião de regresso. Admirei a sua coragem. Não fui capaz de lhe dizer que faríamos pouco mais de 100 km! Saímos ainda de noite. Desta vez o caminho era por pequenos bosques que pareciam encantados, com clareiras e lugares mágicos. Caminhos fáceis e planos. Parece uma recompensa depois de tanta subida e tanto caminho duro. Mais um dia de caminhos planos entre casas e caminhos agrícolas. Agora a minha bicicleta continuava com o problema da corrente, quando punha uma mudança mais leve ela saltava, pelo que teria de manter sempre a mesma, que seria até ao final da viagem. Ouvi um carro que vinha na nossa direcção muito depressa. Quem é este!? Como pode andar aqui a esta velocidade!? Ah!!! Era o padre!!! Fomo-nos cruzando com grupos de caminhantes que seguiam ora sozinhos, ora em grupos. Passávamos por eles, parávamos e eles passavam-nos de novo. Agora ouviamo-los praguejar “Padre maluco … Raios de padre!…”, o carro do padre travava-nos o caminho para entrar no portão da sua casa… Alguns caminhantes já eram nossos conhecidos de noites ou refeições anteriores, sempre motivo de festa, cada vez que nos cruzávamos. Padron. Uma terra maior onde fizémos também uma pausa maior. Continuamos, o corpo estava dorido. Já tinha passado os 100 km. Fotografei o conta quilómetros. Já faltava pouco! Passávamos pontes e zonas de obras um pouco confusas. Encarrilamos na 505, estrada cheia de movimento, que quando um camião nos passava parecia fazer-nos voar. Passou por nós Stefan, um francês que parecia ter pilhas “duracell”… Andava como um boneco! Tão leve. Não, afinal leva uma enorme mochila atrás! Como consegues? A força está na nossa mente. Eu vou assim, sei lá, vou a cantar por dentro e é assim, não custa nada!

Maldita estrada. Enganámo-nos. O caminho já não era por aqui. E agora? Passar para o outro lado seria impossível. Como nos gritou o Stefan não tinha visibilidade para ir para o outro lado. Pensámos que ele queria vir para o nosso lado. Afinal, nós é que teriamos de passar para o dele. Não sei onde fui buscar energia, mas era agora ou nunca: atravessar a correr ou morrer debaixo dos carros… quando chegámos ao albergue o Stefan já vinha de banho tomado com beliche marcado. Almoçámos todos numa espalnada junto a uma estrada secundária, o albergue estava vazio mas muitas pessoas chegavam e tememos não ter lugar, os ciclistas ficam para o fim. O pai americano-cubano com as duas filhas contavam ter feito o caminho tão rápido como o Stefan, pelos vistos já conhecido pelas suas pilhas energéticas. Ele ri-se, diz que é assim. Tinham vindo do Porto. O poder da nossa cabeça. Nós é que controlamos. E o Caminho. Eramos os únicos iniciados, todos já tinham feito várias vezes os caminhos, a pé. O Caminho Francês dizem ter muita gente, sempre. Não como o Português. Mas havia agora um novo pela costa, e Finisterra. Um lugar mágico a não perder. Caminhando. Bicicletando. Cavalgando… Não podiamos ficar no albergue que estava a ficar cheio. Avançámos. Estava um calor tremendo. Nas fontes enfiavamos a cabeça debaixo das torneiras, o capacete por cima. Senão os miolos cozem. Como dizia o Gus. Pensei tanto nele em toda esta viagem. O meu “avô” inglês que andava de biciclete pelo Mundo, com os seus 72 anos… Dizia que o capacete cozia os miolos. Como o entendi. Mas ciclista que se preze não anda sem capacete.

Os bosques eram mais íngremes, os caminhos fáceis e bonitos tinham terminado. Agora avançávamos de sombra em sombra. Eram raras e estava um calor abrasador. E eu a pensar nos casacos e nas calças polares para as noites frias, nos ténis sobresselentes, no impermeável que levava nos alforges! Já tinha deixado os óculos escuros, mais uma coisa pendurada na cara… Mais as luvas… Mais… Como as coisas iam deixando de ter valor… poderia prosseguir apenas com a máquina fotográfica, deixando tudo o resto para trás. Tudo podia ficar para trás. Mesmo os pensamentos que mais nos carregavam! É o sentido do desprendimento completo… Também um sentimento novo para mim. Desprendimento material e psicológico! Não havia horas para comer, nem previsão de lugares para o fazer, nem noites marcadas, nem hora do banho…

O alento esmorecia, o calor não deixava pensar em condições… Aproximava-se o final da tarde. E onde ficar? Os albergues tinham acabado. O caminho era feio. Mesmo. Já não interessava fotografar. Não podíamos ficar por ali. Estávamos nos arredores de Santiago. Nos arredores de uma grande cidade. Um grupo de ciclistas português vai apanhar-nos. “Força, força que estão quase!!!”, gritaram-nos ao passarem a toda a velocidade. Foi o necessário para montarmos de novo nas bicicletes e pedalar com toda a energia. Parei a falar com duas senhoras, admiradas com o que já tinhamos percorrido… Normalmente não falam com os ciclistas, pois estes andam depressa demais e não param para conversar! Via-se agora, pela primeira vez, a catedral ao longe, faltavam ainda uns 7kms. Lembrei-me do João que nos falou da subida do Hospício. Como é que ele sabia que havia um hospício? Agora era demasiado óbvio. Ele falou-nos duma bifurcação para seguirmos o caminho da esquerda (estão os dois marcados!) E agora? Será que era mesmo pela esquerda que ele nos disse? Saí uma velhinha louca duma casa, aos gritos, a dizer-nos que as cinzas de Santiago não estavam ali… O suficiente para rapidamente escolhermos o caminho! O da esquerda pois! Atravessámos Santiago, de avenida em avenida de jardim em jardim, onde é o Caminho? Por aqui? Parámos numa paragem de autocarro no meio da cidade a descansar. Está quase! Quase! Andamos ziguezagueando entre a multidão nas ruelas à volta da catedral. Quando entrei na praça, foi como que cortar a meta! Acabámos deitados no chão da praça de Santiago de Compostela, eram umas oito e meia da noite. Todos festejavam, a praça estava cheia de energia positiva e havia um misto de sorrisos e lágrimas nos rostos, as mochilas, os bastões e as bicicletes decoravam o chão. Consegui! Chegámos!!! Foi o ponto mais emocionante da viagem. Uma enorme vitória. Senti-me cheia. Grande. Enorme. Uma sensação magnífica de plenitude. Difícil descrever. Majestoso!

Olhei para o céu e ela estava lá, a subir, cheia. Linda. A tomar conta de mim. Arrepiei-me. Respirei fundo sentindo toda a tranquilidade. Encerrei um livro. Os dias que se seguiram foram pacificos. Senti saudades da bicicleta que ficou guardada na garagem do hotel. Já era difícil separar-me dela. Ela era parte de mim. Como se as minhas pernas tivessem ganho umas rodas. A missa era ao meio-dia. A nossa amiga francesa disse-nos para irmos cedo, para arranjarmos lugar sentado. Às onze já lá estavamos. Sentados na lateral da Catedral de Santiago. Linda. A missa finalmente começou. Senti-me arrepiar. Era a missa do Peregrino. O padre falou do Caminho. Da vida. Foi interessante e até comovente. O fogareu encheu-se de fumo, os 8 homens davam-lhe balanço e um homem cantava ao som do orgão que agora tinha começado. O fogareu passava-nos por cima. Era uma benção. As pessoas olhavam-se emocionadas, com vontade de se abraçarem umas às outras. O fogareu passava-nos por cima da cabeça, abençoando os peregrinos. As pessoas levantaram-se e uma enorme salva de palmas ecoou pela catedral. As coisas iriam mudar daquele momento em diante. A minha vida seria outra, eu seria outra. Já era. Abençoada e com toda a energia para prosseguir o meu caminho.

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